15/08/2014 

O Pacto da Mediocridade

Edição 159


 

 

O Senador Cristovam Buarque começou a sua carreira política dentro da Universidade de Brasília em 1986. Ele era meu professor na graduação de Economia quando, a pedido das lideranças estudantis - eu no meio - aceitou ser candidato a Reitor, na primeira eleição de reitores de uma Universidade pública depois da instalação do regime militar no país.

À época, em diversas reuniões de preparo da campanha de Buarque, chegou-se à conclusão que uma campanha para eleição do Reitor, não obstante a efervescência da abertura política que o país vivia,  que culminou com a eleição de Fernando Collor, deveria enfatizar a qualidade do ensino e da pesquisa, que havia se deteriorado com anos de intervenção.

O professor Cristovam Buarque cunhou então a frase que lhe daria a vitória nas eleições: “precisamos acabar na universidade com o pacto da mediocridade - aquele em que o professor finge que ensina e o aluno finge que aprende”.

Desde então, a qualidade do ensino e da pesquisa tem sido a bandeira política - e de luta - do Senador Buarque, embora todos  saibamos que o famigerado pacto da mediocridade na educação tenha se aprofundado e não reduzido.

O resultado é que hoje, segundo o Indicador de Alfabetismo Funcional (INAF) do Instituto Paulo Montenegro - vizinho do Sindicato dos Despachantes Aduaneiros de São Paulo - o percentual da população alfabetizada funcionalmente saiu de 61% em 2001 para 73% em 2011, mas somente 1 em cada 4 brasileiros domina plenamente as habilidades de leitura, escrita e matemática.

Analfabetismo funcional é a dificuldade que pessoas alfabetizadas e, não raro, com muitos anos de experiência em determinada atividade, não compreender ou produzir textos e concluir raciocínios  de maneira lógica visando alguma funcionalidade.

Em outras palavras, analfabetismo funcional é a incapacidade de alguém transformar teoria em prática e vice versa, tornando o sujeito refém de  roteiros, manuais, treinamentos e do arquiconhecido “sempre fizemos assim”.  

 

I

 

No último dia 16/12/2012 foi realizada pela Escola de Administração Fazendária (ESAF) o I Exame de Qualificação Técnica de Ajudante de Despachante Aduaneiro.

Conforme relatei na minha Coluna Canal, da Edição n° 157 da  Newsletter Dr. Comex, enviada a emails cadastrados no mailing list da Export Manager – Comércio Exterior 360°, de um total de 284 que fizeram a prova, somente 03 foram aprovados.

Mencionei ainda que fui o primeiro colocado, fato passível de ser comprovado pelo Edital ESAF 03/2013 disponível no site desta instituição.

Eu escrevi ainda em nossa  newsletter que já era ajudante de despachante há muitos anos, embora eu nem me lembre do meu número de registro. Há anos não o vejo.

Ainda como eu disse, eu me desinteressei pela profissão de despachante, caminho natural para quem é ajudante, porque ambas as profissões haviam perdido a atratividade, financeira e profissional, depois que o Decreto 646/92, de maneira correta, abriu o mercado, permitindo livre acesso a ela sem, contudo, ter imputado níveis de exigência intelectual, funcional e profissional para exercê-las.

Escrevi ainda que, se a prova fosse aplicada a atuais despachantes registrados, é bastante provável que poucos seriam aprovados.

Mas eu não mencionei o motivo pelo qual eu fiz o Exame de Qualificação Técnica. Então eu preciso corrigir esta falha no texto.

Eu fiz a prova porque sou consultor e professor de comércio exterior há muitos anos e, como temos na Export Manager Trading School, primeira (e única) escola profissionalizante de comércio exterior do país, um curso preparatório para este exame e, também,  um  curso profissionalizante voltado  aos despachantes aduaneiros, achei que seria importante eu conhecer a prova.

Até porque, na edição n° 150, publicada em nosso sítio (www.exportmanager.com.br) quando foi publicado o Edital do exame, eu alertei que o conteúdo era o mesmo de Auditor. Sempre que há concursos para Auditor eu sou convidado a ministrar aulas em cursos preparatórios e conheço bem as  provas da ESAF na área aduaneira. Tenho alguns poucos fiscais aduaneiros que passaram por minhas aulas. Enviaram a mim os sinceros parabéns quando viram o resultado do exame.

Meu objetivo ao fazer a prova foi conhecê-la, para efeito de criar exercícios compatíveis para o nosso curso preparatório. Isso mesmo, criar, porque nós da Export Manager não adotamos o lema preferido de alguns empresários que oferecem produtos e serviços editorais a empresas e profissionais do comércio exterior, qual seja: “nada se perde, nada se cria, tudo se copia”.

Não é porque eu tenho quase 30 anos de comércio exterior é que eu vou deixar de ter a humildade de buscar mais conhecimento ou adotar uma postura arrogante de dono da história e do  saber, sentado em um escritório sonolento, mas sempre fashion vestindo um costume azul marinho da grife oficial do comércio exterior - a marca escocesa Black Label.

Quando saiu o Edital para o Exame, eu e a advogada aduaneira Priscila Silva Guimarães, de Santa Catarina, elaboramos um programa e seu respectivo conteúdo para oferecer a ajudantes que fossem  fazer a prova.

Nós divulgamos o curso preparatório a todos os Sindicatos de Despachantes do país com o intuito de que eles divulgassem aos seus sindicalizados que, por sua vez, poderiam apresentar aos seus ajudantes.

A maioria teve uma resposta padrão: “não é necessário porque o pessoal tem a prática”.Tenho arquivado alguns emails trocados com estes sindicatos.

Em momento algum eu pensei em fazer o exame para me credenciar a despachante aduaneiro. Se eu quisesse ser despachante aduaneiro já o teria feito há anos.

Eu também não estudei para o exame. Na verdade quase não fui. Eu acordei tarde no domingo, porque havia ficado até às cinco da manhã escrevendo mais um dos livros da Coleção Dr. Comex, neste momento com 16 livros, todos voltados a temas específicos de comércio exterior e que compõem o sistema de ensino da Export Manager Trading School.

Eu estava cansado. Mas daí eu tomei um café duplo e decidi ir, cheguei faltando 15 minutos para o portão fechar. Sentei numa cadeira que indicava a prova de número 2.

Todos os livros da Coleção Dr. Comex são da minha autoria, incluindo o de Matemática Financeira, que contém exercícios voltados às operações de financiamento de exportações e importações.

Faltando cerca de uma hora para o término da prova, ninguém ainda havia saído da minha sala, surgiu uma polêmica. Segundo alguns participantes, havia, na Prova 2, e nas outras, várias questões com mais de uma resposta correta.

A mesa adotou o procedimento padrão. Informou que depois da prova abrir-se-ia o período para impugnação de questões e deu o assunto por resolvido.

Eu já estava finalizando meu gabarito, querendo ir para casa dormir, já que no nosso escritório é impossível dormir diante de tanta atividade, e fiquei surpreso: será que eu não havia visto estas questões “erradas”? Eu não me lembrava de nenhuma questão com mais de uma resposta certa. Finalizei e fui o primeiro da sala a ir embora.

O Edital ESAF 03/13 considerou equivocados todos os pedidos de impugnação efetuados.

O que provavelmente aconteceu é que vários participantes, apesar de alfabetizados e talvez com conhecimento “prático”, estão com problemas de interpretação do que está escrito com vistas à funcionalidade de encontrar a resposta certa. Analfabetismo funcional.

 

II

 

Em 07.02.2013, às 8h51, eu havia acabado de acordar, depois de uma madrugada negociando com a China, recebi em meu email da empresa, um longo texto do Sr. Domingos De Torre, assessor jurídico do Sindicato dos Despachantes de São Paulo, acerca da Edição n° 157  da Newsletter Dr. Comex. Copiados, estão os membros da diretoria dos Sindicatos de Despachantes Aduaneiros de todo o Brasil.

Como um dos valores fundamentais da Export Manager é a transparência, publicamos, em destaque, a íntegra do email na página do Dr. Comex no Facebook (https://www.facebook.com/pages/Dr-Comex/297035610349092?ref=hl).

Na sequência da recepção deste email, uma série de emails foram enviados pelas diretorias de sindicatos de todo o país apoiando o Sr. De Torre e, naturalmente, denegrindo a mim. Falta de ética da minha parte foi explicitamente escrito por todos tendo, em cópia, membros dos sindicatos de todo Brasil. Eu declaro que não conheço nenhuma das pessoas copiadas nos emails que se seguiram.

Mas eu quero agradecer, em nome da Export Manager, pela leitura e debate gerado por nossa  Newsletter Dr. Comex. Em um mercado tão soporífero, em que, com raríssimas exceções, os textos de consultores ainda possuem estilo da década de sessenta, quando eu tinha cinco anos, sem a menor criatividade e modernidade editorial, é realmente honroso, e quiçá divertido, saber que as singelas palavras deste ajudante de despachante geraram um debate junto à categoria superior e relevante dos despachantes aduaneiros, que espero profícuo.

Em todos os emails que recebi, há uma característica comum. Todos mencionam a frase de efeito ao final do email do Sr. De Torre quando diz: “muitos despachantes aduaneiros fizeram e fazem a história da profissão e outros apenas a contam”.

Eu me questiono: a quem o Sr. De Torre quis atingir? A mim não pode ter sido porque eu nunca fui nem sou despachante aduaneiro, sou ajudante. Se eu fosse despachante, não poderia ter feito o recente Exame de Qualificação.

Ou é um erro de lógica, ou algum atrito interno no SINDASP, ou uma briga de poder dentro daquilo que o Sr. De Torre denomina de “comunidade aduaneira”.

A propósito, Sr. De Torre, “comunidade” é uma palavra equivocada para designar os sindicatos, seus membros e afiliados, de qualquer categoria. Uma comunidade se forma a partir de valores, princípios e relacionamentos em uma determinada localidade específica, podendo, na atualidade, ser virtual.

A quantidade e a dispersão das pessoas desta profissão não nos permite chamá-las de uma comunidade. Eventualmente, dependendo das condições, poderiam formar uma comunidade o conjunto de profissionais de um determinado porto, aeroporto ou ponto de fronteira  alfandegados. Mas eu conheço Estados em que temos mais de um sindicato da categoria.

O que o Sr. chama de “comunidade aduaneira” é, na sociologia e na ciência política, um grupo de interesse. Grupos de interesse agem junto aos poderes e junto à sociedade fazendo lobby. Nas comunidades, despreza-se o poder externo, querem a autogestão, não a interferência.

Tanto isso é verdade que, no email que me foi enviado, você se orgulha do passado de lutas, algumas inglórias, na defesa dos interesses da categoria junto ao Governo, sempre, segundo você, com o apoio das autoridades aduaneiras.

Pode se perceber claramente pela linguagem adjetiva do email que me enviou que há um certo deslumbramento pelo poder. Este fascínio o leva a superestimar a liturgia dos atos e palavras procedentes de membros dos altos escalões públicos e políticos como se íntimos da liderança da categoria fossem.

Eu morei 12 anos em Brasília, Sr. De Torre, e trabalhei vários anos, no período de faculdade e depois dele, em um hebdomadário chamado Jornal da Semana, mais conhecido como José, dirigido pelo Jornalista Luís Gutenberg, que era uma espécie de Valor Econômico da política.

O José era respeitadíssimo pelas análises políticas e ampla cobertura crítica da política. Recebíamos elogios de todo o espectro político por conta de nossas análises balizadas e sem viés ideológico ou partidário.

Além disso, Sr. De Torre, a graduação em Relações Internacionais que fiz na UnB, à época,  era conjunta com Ciência Política e, portanto, meu Diploma abrange esta ciência também.

Convivi todos  estes  anos  diariamente com o poder, no trabalho, no estudo ou pessoalmente, Sr. De Torre, e posso lhe garantir que, quando se lida com pessoas dos altos escalões políticos e públicos, é preciso ter, agora não mais lógica, mas o discernimento para separar um ato público ou discurso de uma autoridade perante um grupo de interesse, do efetivo interesse público e político do Governo ou da instituição a qual ele representa.

Quando seu email menciona as atividades de lobby dos sindicatos em Brasília, demonstra que é um grupo de interesse, não uma comunidade, e também que, alguns dos insucessos, mencionados no email, evidenciam o que menciono no parágrafo anterior é a mais justa realidade.

De forma muito pertinente, cumprindo a sua obrigação,   você  ainda discorre no seu email sobre a evolução legal da profissão e afirma, citando o saudoso cantor Cazuza, que algumas das minhas “idéias não correspondem aos fatos”.

Afirma ainda que eu me contradisse quando, primeiro, elogiei os atos de Fernando Collor,  mas depois afirmei que isso prejudicou, nas palavras de um diretor de um dos sindicatos nos emails que recebi, a “gloriosa profissão de despachante aduaneiro”.

Como eu mencionei,  paralela ao comércio exterior, tenho uma longa carreira no mercado editorial, como autor, redator, editor e executivo, desde antes da minha graduação.

Uma newsletter, Sr. De Torre, não é uma tese de mestrado, sobretudo no formato eletrônico como é a  Dr. Comex.  A leitura de um texto eletrônico, Sr. De Torre, como já deve ter percebido em seu certamente moderno computador pessoal, não é feita palavra por palavra como no texto impresso mas por “escaneamento” de blocos de textos.

Por este motivo, o texto deve ser ágil, veloz, contendo apenas o essencial para sustentar a lógica e o tema principal do autor, sem citações excessivas que atritam a leitura. A legislação que você menciona eu a conheço de outrora por meio da sua brochura ( vamos utilizar  um palavra mais moderna e adequada), uma publicação da sua autoria que compila toda a legislação pertinente à profissão.

Eu não mencionei no meu artigo tais normas porque eram irrelevantes ao propósito da matéria que era argumentar sobre a falta de qualificação dos profissionais atuais e não sobre a regulamentação da profissão ou dos esforços dos sindicatos em valorizar a “gloriosa”.

Por este motivo, Sr. De Torre, eu fiz um “corte” no Decreto 646/92 porque este foi, para efeito da qualificação profissional e desvalorização da “gloriosa”, foco do meu texto, o grande divisor de águas. Você diz o mesmo no seu email. Que o “famigerado” 646/92 é uma interrupção da lógica normativa e dos esforços dos sindicatos em valorizar a “gloriosa”.

Neste sentido, Sr. De Torre, há  outro erro de lógica no seu texto. Você pensa que discorda de mim  quando na verdade concorda:  eu chamo o Decreto 646/92 de errado e você de famigerado.

Nossa discordância está apenas em um ponto: você acha este Decreto completamente errado porque está emocionalmente ligado ao trabalho de lobby dos sindicatos. Eu acho parcialmente errado.

Não há, Sr. De Torre, contradição alguma em minhas palavras. Há contradição nas suas que, à guisa de mostrar a sua longa militância e conhecimento da regulamentação da “gloriosa”, me ataca na forma mas concorda na essência.

No email ainda, o Sr. De Torre se inflama quando menciono o uso compulsivo das mídias especializadas pelos membros das diretorias dos sindicatos. Segundo ele, tais mídias são utilizadas não para aparecer  mas para demonstrar os seus feitos em prol da “gloriosa”.

Em relação a isso, eu também vou ser moderno e fazer igual mocinho de filme de faroeste americano: vou responder com outra pergunta. Você é um bom entendedor, então outra pergunta basta.

Como seguramente é de seu conhecimento, as sociedades de capital aberto com ações negociadas no mercado de capitais tem a obrigação legal de publicar seus balanços anualmente na mídia e no Diário Oficial.

Uma vez por ano somente, não toda semana ou todo mês. Um balanço, por definição, é um relatório contábil dos “feitos” da gestão em um determinado período.

Nestes balanços anuais, alguma vez você por acaso viu a foto do Presidente da empresa?

 

III

 

Embora discorde radicalmente dos membros dos sindicatos terem,  em uníssono, por escrito, diante de pessoas que jamais conheci, me taxado de não ter ética, matéria que, a propósito, eu estou seguro que acertei todas as questões no Exame de Qualificação, irei ser proativo e ajudá-los com algumas singelas idéias sobre o futuro da “gloriosa”.

O Sr. De Torre diz que ficou “estarrecido e incrédulo”com a Edição 157 da Newsletter Dr. Comex. Eu fiquei estarrecido e incrédulo quando li o Edital ESAF 03/13. Achei que estava faltando página.

Em primeiro lugar, considero que a liderança da “gloriosa” está visivelmente ligada ao passado. Perdeu o seu timing, mas continua no poder. Não houve renovação das lideranças, me perdoem a análise de cientista político. É herança do José.

Devemos enaltecer a importância dos grandes membros do passado. Mas o tempo deles passou. Aos mortos devemos reverência  mas, salvo melhor juízo, e para isso gostaria de ouvir a opinião do Sr. De Torre, acho difícil que venham a contribuir com alguma coisa prática.

O que é importa é o presente e, sobretudo, o futuro.

O Edital ESAF 03/13 mostra que o presente é ruim e o futuro, se continuar neste caminho, será péssimo.  É uma questão matemática.

O Exame de Qualificação passou a ser exigido em 2009. Transcorridos dois anos, teremos, anualmente, um “lote” de ajudantes passíveis de serem elevados à condição de despachante.

Sem contar o “estoque” de ajudantes anteriores a isso, do qual eu faço parte.

Se a cada dois anos  tivermos 1% de aprovados, em dez anos teremos somente 10% do total de ajudantes passíveis de se tornarem despachantes.

Em resumo, o futuro será um cartório decrépito porque terá mais gente antiga que nova. Aliás, cartório é uma palavra inadequada porque até os cartórios necessitam de concurso público.

Caminhamos para um pacto, um cartel, semelhante ao cartel dos terminais marítimos que o Governo, não obstante o poderoso lobby,  desconsiderou e, por meio de Medida Provisória, mandou reabrir as licitações para todos com contrato vencido.

Teremos um apagão de profissionais da “gloriosa” e um retorno aos bons e velhos tempos dos poucos e locupletados despachantes, um círculo fechado. Alguns ganharam tanto dinheiro que compraram terminais marítimos à época da concessão dos portos.

É este o objetivo dos sindicatos quando falam em “valorizar a gloriosa”? Se for, só espero que não queiram substituir o computador pessoal pela máquina de escrever Olivetti verde de outrora.  

Lembra   dela,  Sr. Domingos de Torre?

Mas, se o objetivo não é este - como espero que não seja - e por isso acho o Decreto 646/92 é correto, um corte na legislação, então há algo errado no reino da Dinamarca tendo em vista que, repito, poucos se inscreveram e somente 1% deles foi aprovado no Exame de Qualificação.

Neste sentido, tenho três sugestões a fazer a Vsas., membros de sindicatos dos despachantes aduaneiros de todo o Brasil, os quais não conheço, embora, depois de tantas farpas trocadas, estou quase adicionando-os no meu perfil pessoal do Facebook como amigos da minha comunidade pessoal.

Irei explicar bem devagarzinho, para que haja perfeita compreensão e, em havendo perfeita compreensão, Vsas.   possam  utilizar tais idéias funcionalmente, ou seja, colocá-las em prática a partir da teoria, e vice versa. Eu sou ruim para desenhar mas,  se for preciso, eu repito quantas vezes forem necessárias:

 

Sugestão 1 – Corrigir o erro histórico do Decreto 646/92

 

Tanto eu quanto o Sr. De Torre concordamos que o Decreto 646/92 cometeu um erro. O erro de ter desregulamentado a “gloriosa” sem que tivéssemos  pré  requisitos que elevassem o nível técnico do exercício da profissão.

Visto pelo lado positivo, o erro do Decreto 646/92 deu aos sindicatos a oportunidade ímpar de buscar  a auto regulamentação da “gloriosa”.

Bastava, para isso, em vez de choramingar junto às autoridades aduaneiras, buscar junto ao Congresso, já que é um grupo de interesse,  a aprovação de uma Lei em que a fiscalização e exercício da profissão fossem fiscalizadas por Conselhos, nos moldes da profissão de contador, por exemplo.

Como a oportunidade foi perdida, vamos, Sr. De Torre, corrigir o erro histórico e pleitear que a profissão somente possa ser exercida por profissionais que, a cada cinco anos, sejam aprovados em um Exame de Qualificação Técnica e, desta forma, todos que estiverem na profissão terão que continuar se aprimorando. Exame de Qualificação amplo, geral e irrestrito.

Certamente, todos os membros dos sindicatos e o próprio Sr. De Torre, possui carteira Nacional de habilitação – CNH. A cada cinco anos,  a CNH deve ser renovada.

Se o condutor cometeu infrações e teve penalidades no período, terá de voltar à escola para fazer um curso de atualização e fazer novo exame. Eu fiquei suspenso três meses por excesso de velocidade.

O ideal é que, a cada cinco anos, todos os despachantes aduaneiros devam fazer um Exame de Qualificação, e, não obtendo a nota mínima, sejam suspensos do exercício da “gloriosa”.

O cadastro aduaneiro é o instrumento para controle disso. Está muito fácil, basta alterar a legislação que criou as penalidades a intervenientes aduaneiros.

Em um dos emails que recebi, o membro de um dos sindicatos disse que eu queria aparecer.

Vou aproveitar e responder aqui. Quando eu quiser aparecer, membros de sindicatos, em vez de postar a minha foto no site ou na minha coluna, eu faço de novo o Exame de Qualificação.

Prometo dormir bastante da próxima vez.

 

Sugestão 2 - Acabar com o recolhimento dos honorários pelos sindicatos

 

Como o Sr. De Torre demonstrou, com todo o seu conhecimento da legislação, que a contratação dos honorários é livre. Não há mais motivo para que estes sejam recolhidos por meio dos sindicatos. É uma excrescência da legislação. Certo, Sr. De Torre?

Se  é para controle do Imposto de Renda, convenhamos, a Receita Federal do Brasil possui na atualidade mecanismos e ferramentas eletrônicas muito mais modernas e eficientes para exercer este controle.

E, se é para controle daqueles que estão registrados e regulares na profissão, então faz menos sentido ainda depois do advento do Cadastro Aduaneiro.

Aqueles que estiverem em situação irregular no Cadastro Aduaneiro, incluindo não terem renovado a sua “carteira” por não terem obtido nota mínima no Exame de Qualificação, ficam impossibilitados de assinar processos aduaneiros até que regularizem a situação.

 

Sugestão 3 – Investir na formação das bases

 

Há duas maneiras de um time ter craques. Comprando craques ou formando-os nas categorias de base. Há craques que custam muito caro!

Em “Palavra do Presidente”, disponível no site do SINDASP (www.sindasp.org.br) o atual presidente, Sr. Valdir Santos, diz que o resultado da prova era esperado  mas se revelou surpreso com o baixo número de inscritos.

Parece que a profissão de despachante se tornou uma caixinha de surpresas. Se Vsa. já esperava, há anos que está neste cargo, por que não fez nada? Segundo o email do Sr. De Torre, fizeram. Diante da expectativa do Presidente e do resultado da prova, conclui-se que fizeram errado. Então vamos buscar entender.

A abertura econômica aconteceu em 1990  mas o boom do comércio exterior somente foi ocorrer a partir de 1995 com o advento do Plano Real. Neste primeiro momento, faltou tudo: armazém, profissionais qualificados, professores, fiscais, terminais, legislação adequada.

A solução emergencial para os profissionais veio por meio do treinamento. Este é uma prática voltada não à formação, mas à informação de um tópico específico do conhecimento. Como a formação era, e ainda é, precária, o mercado correu para o treinamento, isto é, conhecimento pontual.

O resultado é que grande parte dos profissionais possui experiência e um conjunto de conhecimentos pontuais que não caracterizam uma formação orgânica. Aprendem o como mas  não o porquê.

O Exame de Qualificação da ESAF,exigiu, corretamente, o como e o porquê, instrumentalizados por alfabetismo funcional. Só faltava os sindicatos pedirem para baixar o nível da prova.

Vou colocar uma imagem ilustrativa na lousa. Ou, mais atual, no quadro branco. Pensem no joguinho de ligar os pontos. Treinamento é isso, uma série de pontos de conhecimento  mas que não formam uma figura. O que forma a figura é a formação profissionalizante.

Errei, no comércio exterior forma uma figura sim: a de uma picareta, porque basta pesquisar no Google para ver que há várias ofertas denominando estes treinamentos de “cursos de formação”.

Do ponto de vista pedagógico, da legislação educacional e até do Código do Consumidor, não são cursos de formação. São treinamentos.

A solução de ter um treinamento ministrado pelas autoridades aduaneiras foi engenhosa,  mas é o mesmo que querer que os advogados sejam formados pelo Poder Judiciário. Ora, Senhores membros dos sindicatos, convenhamos, a “gloriosa” é uma atividade privada, de representação técnica e de responsabilidade perante o Poder Público, não o contrário. Não é  um curso livre chapa branca que vai resolver o problema. Isso gera conflito de interesses.

Tentando trazer o Governo para resolver um problema de natureza privada, eu entendo que Vsas., acabam por desvalorizar profissionais da “gloriosa” porque estão dizendo subliminarmente que, sem o Governo, são todos incapazes de autogerir a formação de talentos. Ainda bem que eu sou ajudante.

O que é necessário é ter, efetivamente, cursos privados profissionalizantes de formação e treinamentos pontuais apenas para atualização de tópicos específicos (informação), credenciados pelos sindicatos, ou pelos eventuais futuros Conselhos, a partir de critérios pedagógicos e técnicos que atendam às necessidades da profissão.

Treinamento não substitui formação técnica, complementa.

Mas observem,  escolas referendadas a partir de critérios técnicos e pedagógicos, ou seja, mercado, não apaniguado. Escolas que um corpo de professores que reúna, ao mesmo tempo, teoria e prática.

Para responder consulta repetindo o que está escrito na legislação basta ser alfabetizado. É preciso ir adiante, ensinar a interpretar e aplicar a legislação. Não é só teoria, nem é só prática.

É conhecimento aplicado. Somente com cursos que ensinem o aluno a ter conhecimento aplicado é que resolveremos o problema da qualificação profissional nesta área.

O perfil do despachante é o de um consultor. Um consultor, primeiro diagnostica o problema, depois busca no ferramental teórico a solução e, a partir deste, retorna com uma atividade prática. O nome disso é alfabetismo funcional.

O Presidente Valdir Santos sabe disso. Inclusive ele usou estas idéias no seu primeiro discurso de posse, se não me engano nos longínquos anos de 1995/96 quando a minha atual Coluna Canal era a Coluna Trade do Caderno Marinha Mercante, encartado no Estadão.

Na época, o Sr.  Valdir Santos se inspirou em um artigo de minha autoria que falava sobre o novo perfil do despachante aduaneiro para fazer o seu discurso de posse.

Eu dizia, em 1996, há quase vinte anos - eu era praticamente um menino - que o despachante tinha de ser um consultor. Agradeço tardiamente, Mister President.

 

IV

 

Meu objetivo com estas singelas idéias originais de ajudante de despachante (nosso lema é: conosco nada se copia),  é somente ajudá-los a valorizar a “gloriosa” e melhorar o comércio exterior brasileiro, sobretudo para quem paga a conta: o importador e o exportador.

E sabem por que motivo eu gostaria que a “gloriosa” fosse uma atividade que conta?

Porque assim eu poderia exercer mais uma profissão do comércio exterior caracterizada pela ética, pelo livre pensar e pela qualidade técnica.

E não por um pacto da mediocridade em que o nível técnico não conta e a maioria faz de conta.

 

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Claudio César Soares, 50, é Diretor da Export Manager Trading School

 

Fonte: Export Manager