01/02/2016 

" A Nível de Notar"

Edição 204

Toda profissão tem jargões. Eles são uma espécie de identidade da área, um código que já foi secreto, até inventarem o Google. Mesmo com o robô, os jargões se prestam a distinguir uns de outros, os de dentro da profissão dos de fora, reles desconhecedores do assunto.

 

Para usar um jargão do jornalismo, deve ser um ranço da época das corporações de ofício medievais em que certas profissões passavam seus segredos de pai para filho.

 

Mas o comércio exterior, além dos jargões, tem vícios e manias. Em quase trinta anos trabalhando nesta área, eu já cataloguei alguns deles.

 

Os anos 90 foram a era do “a nível de”. Dava status, em meio a um coffee break de algum seminário na FIESP, lançar aleatoriamente um “ a nível de balança comercial”. Ou, se o profissional era do back office, mais taxativo: “ a nível de drawback, estamos bem”.

 

A expressão “a nível de” é correta somente nos casos em que há um desnível físico, por exemplo, um porto está ao nível do mar. Ao ser utilizada como locução adverbial, como se sofisticado fosse, apenas demonstra o nível intelectual do interlocutor.

 

Nos anos 00, em que todo mundo se dizia especialista e experiente  mas a maioria estava aprendendo a trabalhar em uma economia aberta, a mania era o “urgente”.

 

Como a interação era lenta, devido à incipiente estrutura de telecomunicações,e também porque ninguém tinha a resposta imediatamente, o “urgente” era fartamente utilizado tanto nos telefonemas quanto nos “subjects” dos emails os quais, naquele momento, quem tinha podia ser reputado geek.

 

No princípio estes “urgentes” causavam sobressaltos. Depois, como todo mundo usava “urgente”, ninguém nem notava mais. Passou-se a marcá-los em vermelho. Mas não adiantou. Se tudo é urgente, depois a gente vê como resolve.

 

Urgência acontece quando algo não foi feito no momento certo, no momento em que deveria ter sido feito. Se tudo na atividade de comércio exterior é urgente, significa que você não está fazendo nada, é um procrastinador. Você está depondo contra você mesmo.

 

Claro que urgências acontecem do nada, sobretudo no comércio exterior. Mas elas devem ser exceção, não a regra, caso contrário revelam incompetência, não agilidade. Urgência não é um princípio razoável para gerenciar operações de comércio exterior.

 

Os anos 10 trouxeram a mania do “notar”. Como toda epidemia, ela começa com alguns poucos utilizando e, em algum momento, tem um tipping point e vira moda.

 

Neste caso, quem provavelmente introduziu a expressão foi o pessoal da logística internacional, sempre up-to-date em expressões em inglês importadas diretamente ou por conta e ordem de terceiros.

 

“Notar” possui o mesmo nível do gerundismo, esta praga que entrou nos anos 90 no país por meio dos manuais de call centers em que a expressão “ I will be (verb) + ing”, do futuro contínuo, foi traduzida literalmente nos treinamentos para “ eu vou estar + gerúndio”.

 

Treinar é adestrar, diferente de educar. Este proporciona o pensamento crítico, aquele subserviência a idéias estabelecidas ( quase sempre ultrapassadas).

 

Desde então, a expressão, que existe no português somente para dizer algo que se faz de maneira permanente, veio para ficar, sobretudo nas operadoras de telecomunicação que vão  estar fazendo nada do que prometem.

 

Eu vou estar enviando um email significa que eu vou enviar um email para o resto da vida (com a velocidade da internet brasileira pode até tornar-se verdade). Mais preciso (e fácil) é dizer: vou lhe enviar um email. 

 

O verbo “to note”, em inglês, significa “to notice or pay attention to”, um nível abaixo de uma “urgency” que é, aparentemente, a tradução do nosso "notar".Neste sentido, em português, notar significa “perceber, atentar-se”. 

 

Mas a tradução literal de "to note" para o português, é “anotar, tomar nota de alguma coisa” que é um significado diferente de ficar atento a algo.

 

Eu posso anotar algo em meu post it eletrônico e esquecer do assunto se eu avaliar que é algo que não inspire algum cuidado imediato, que necessite eu atentar-me. O uso indiscriminado  trouxe ao português um componente subjetivo que pode alterar a natureza do "notar".

 

Se o "urgente" tem um problema conceitual, o “notar” é do mesmo nível do “a nível de” - uma mania formal que é um desserviço à comunicação objetiva e transparente principalmente porque temos palavras objetivas para cada uma das situações do "notar", quais sejam, atentar-se e anotar.

 

Com a vantagem que atentar-se tem a mesma raiz de atentado, que tanto pode significar ataque (como o terrorista) quanto endemoninhado. Em qualquer destes casos, se vir um "atente-se" iniciando a mensagem, é recomendável atenção e prudência.

 

E, se vir um anotar, é algo mais tranquilo, você anota e guarda para uso futuro, sem necessidade de ficar alerta, sobressaltado. 

 

Já no caso de “notar”, somente sabemos que a mensagem era para ficar atento quando recebemos do interlocutor um email com subject em vermelho: URGENTE!!! (as três exclamações são fundamentais).

 

Quando recebo um “notar”, eu sempre me pergunto se aquele “notar” está com sentido em inglês, isto é, “fique atento” ou com sentido em português, ou seja, “anote” e relax.

 

Por este motivo, sempre respondo a um “notar” com minha frase padrão entre aspas que consolida em um email master todos estes modismos house do comércio exterior: “ a nível de notar, fi-lo com urgência”.

 

Claudio César Soares, 53, é consultor de comércio exterior da Rede Dr. Comex e instrutor da Export Manager Trading School.

 

Pílulas

 

Abertas as inscrições para o Curso Despachante Aduaneiro da Export Manager Trading School. Matrículas pelo email: marketing@exportmanager.com.br.

 

O curso preparar ajudantes de despachantes e despachantes que pleiteiam o OEA para o Exame de Qualificação da ESAF que acontecerá em Abril deste ano.

 

Curso 100% online e gravado. Aulas ao Vivo para dúvidas e correções de simulados.

 

 

Consulta

 

Imposto de Importação – Responsáveis

 

Art. 105. É responsável pelo imposto:

I - o transportador, quando transportar mercadoria procedente do exterior ou sob controle aduaneiro, inclusive em percurso interno (Decreto-Lei nº 37, de 1966, art. 32, caput, inciso I, com a redação dada pelo Decreto-Lei nº 2.472, de 1988, art. 1º);

II - o depositário, assim considerada qualquer pessoa incumbida da custódia de mercadoria sob controle aduaneiro (Decreto-Lei nº 37, de 1966, art. 32, caput, inciso II, com a redação dada pelo Decreto-Lei nº 2.472, de 1988, art. 1º); ou

III - qualquer outra pessoa que a lei assim designar.

 

Comentários

 

Segundo o Código Tributário Nacional (Lei 5.172\66 Artigo 121 Inciso I) responsável é aquele se reveste de contribuinte, assumindo o pólo passivo da obrigação tributária, por alguma razão estabelecida em Lei.

 

No caso do comércio exterior, o Decreto-Lei 36\66, com a redação dada pelo Decreto-Lei 2.471\88, define como responsáveis o transportador de mercadoria procedente do exterior ou no trânsito interno sob controle aduaneiro e o depositário, aquele que detém a posse da mercadoria sob controle aduaneiro no país.

 

E os fatos que atribuem juridicamente responsabilidade ao transportador ou ao depositário, fixado no Artigo 60 do Decreto-Lei 37\66 consiste na avaria ou dano, entendidos como qualquer prejuízo que sofrer a mercadoria ou seu envoltório e no extravio, considerado a falta de mercadorias, excetuando-se o erro inequívoco e comprovado de expedição.

 

Tanto no caso de avaria quanto de extravio, é necessário comprovar material e formalmente que transportador ou depositário foram os agentes causadores dos fatos para que se revistam de responsabilidade.

 

Fonte: Export Manager