15/08/2014 

Grau de Investimento

Edição 72

O “selo de segurança”, ou grau de investimento, adquirido recentemente pelo Brasil é, ao mesmo tempo, uma oportunidade e uma ameaça.

É uma oportunidade porque mais investidores externos irão direcionar os seus dólares para o Brasil. É uma ameaça porque mais dólares serão ofertados no mercado de câmbio, desvalorizando ainda mais o dólar e, consequentemente, tornando as exportações mais caras.

É clássica a expressão do economista Edmar Bacha na década de oitenta. Na época, ele denominou o Brasil de Belíndia – metade Bélgica, metade Índia. A Bélgica já não é mais um modelo de economia desenvolvida e a Índia é um país emergente que adquiriu o status de  grau de investimento antes do Brasil. Não somos mais uma Belíndia.

Mas a divisão econômica do país permanece. De um lado, temos um setor integrado à economia global que cresce a padrões chineses. De outro, temos a economia de setores e empresas não integrados à economia mundial que está estagnado. É quase uma Bolívia de Evo Morales.

A economia chinesa dentro do Brasil tende a abrir o capital na Bolsa de Valores e a ter acesso à tecnologia, créditos e insumos mais baratos procedentes do resto do mundo.

A economia boliviana do Brasil sofre a concorrência dos produtos chineses, com os altos juros, e definha com carga de tributos “jamais vista na história deste país”.

Se o grau de investimento trará benefícios para a economia brasileira como um todo não dependerá dos investidores externos. Dependerá do próprio Brasil.

Primeiro, será preciso selecionar quais investidores queremos. Se vierem apenas os investidores para ganhar com a diferença de juros, então o grau de investimento é uma ameaça aos exportadores porque pode haver uma enxurrada de dólares valorizando ainda mais o real.

O Chile, que detém o grau de investimento há anos, condiciona a entrada de investimento especulativo à permanência do dinheiro no país por um certo tempo.

Outra medida cuja oportunidade não via há tempos é baixar os juros a ponto de tornar desinteressante a entrada de juros especulativos.

Controlar a entrada de capital especulativo beneficia a China brasileira. Reduzir juros beneficia também a Bolívia brasileira.

Beneficiar com isenção de tributos os investimentos externos diretos ( em plantas industriais por exemplo) e os investimentos no mercado de capitais (bolsas) também beneficia as duas economias, chinesa e boliviana.

Olhar os juros apenas a partir da meta de inflação com investidores externos ávidos por segurança e ganhos fáceis numa conjuntura em que os Estados Unidos tem baixado os seus juros a quase zero para minimizar a sua crise, é uma ameaça tanto à economia chinesa quanto à boliviana. Para a chinesa, menos vendas externas, para a boliviana, menos vendas domésticas.

Uma nova variável entrou na política econômica e pode ser equacionada com a seguinte pergunta: o que faremos com tanto dinheiro externo?

Resposta 1 – favorecer apenas economia chinesa do Brasil, incluindo bancos.

Resposta 2 – favorecer apenas a economia boliviana do Brasil.

Resposta 3 – favorecer ambas as economias e rumar para o grau de desenvolvimento.

No dia seguinte ao anúncio, o Banco Mundial declarou que irá investir 7 bilhões de dólares no país. É pouco ainda.

 

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Fonte: Export Manager